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Quando o relógio ainda não existia

 Quando eu era criança, o relógio existia apenas na parede. Eu sabia que ele estava lá. Sabia que tinha ponteiros. Sabia até ler as horas, porque a escola ensinava. Mas eu não entendia por que aquilo era importante. O tempo, naquela época, não era contado. Era vivido. A tarde durava para sempre. Uma brincadeira parecia ocupar um universo inteiro. Era possível desenhar nas paredes, escalar corredores, transformar o chão ensaboado em um oceano e ainda sobrar tempo para apostar uma corrida e ver quem chegava até a esquina antes de escurecer. Nós éramos quatro crianças inventando mundos dentro de casa. As paredes brancas viravam telas. A escada virava escorregador. O colchão virava trenó. Até o banheiro às vezes virava parque aquático. E depois de cada aventura vinha a bronca, o castigo e a limpeza da bagunça. Mas até isso fazia parte da brincadeira. Porque o dia parecia infinito. Na infância, ninguém dizia: “São 16h42.” As coisas aconteciam em outro idioma: “até a mãe...

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