Ao lado do sol
Há noites em que o mundo parece invertido.
As vozes mais altas ordenam destruição, e o medo ensina as pessoas a obedecer. A injustiça veste uniformes respeitáveis, e até aqueles que juraram proteger acabam servindo ao poder que oprime.
Nessas horas, o silêncio coletivo pesa mais que qualquer explosão.
Mas sempre surge alguém que caminha na direção contrária.
Ferido, desacreditado, incompreendido... Ainda assim caminha. Como se carregasse uma verdade antiga demais para ser destruída. Ele pronuncia nomes que o mundo tentou esquecer. E nomes despertam memórias. Memórias despertam consciência. Consciência assusta sistemas inteiros.
Dizem para que ele obedeça.
Ele não obedece.
Dizem para que pare.
Ele segue.
E sem perceber, outros começam a segui-lo.
Não por força.
Não por imposição.
Mas por reconhecimento.
Porque quando alguém caminha em direção à luz, algo dentro de nós lembra o caminho.
Nem todos conseguem segui-lo. Alguns hesitam entre a ordem e a consciência. Outros tentam voltar atrás, mas descobrem que certas escolhas não permitem retorno. O medo deixa rastros: ruínas, corpos, rios violentos de consequências que ninguém quis enxergar.
Ainda assim, a vida insiste.
Em apartamentos abandonados, a ternura sobrevive em silêncio. O que parecia ameaça revela carinho. O que parecia vazio ainda guarda alimento. Há delicadeza escondida sob a poeira do abandono.
E enquanto o mundo tenta se reorganizar, percebemos algo simples e brutal:
cuidar custa dinheiro,
reconstruir exige esforço,
mas ignorar também tem um preço.
Às vezes é preciso demolir o que já não sustenta vida.
E então, inesperadamente, nasce um jardim.
A grama reaprende a ser verde.
Flores surgem onde antes havia concreto.
O ar volta a respirar esperança.
As pessoas encontram abrigo. A vida encontra novos lugares para começar.
E no centro desse espaço reconstruído, surge um palco.
Não para discursos.
Não para ordens.
Mas para encontros.
Mesas postas.
Cadeiras ocupadas.
Olhares presentes.
Alguém precisa cantar quando a paz encontra onde se sentar.
Talvez seja essa a tarefa que nos resta depois das noites difíceis:
seguir a luz,
reconstruir jardins,
proteger a ternura escondida no mundo,
e oferecer beleza quando o amanhecer finalmente chega.
Porque, apesar de tudo, o mundo continua ao lado do sol.

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