Quando o relógio ainda não existia

 Quando eu era criança, o relógio existia apenas na parede.

Eu sabia que ele estava lá. Sabia que tinha ponteiros. Sabia até ler as horas, porque a escola ensinava.
Mas eu não entendia por que aquilo era importante.

O tempo, naquela época, não era contado.
Era vivido.

A tarde durava para sempre.
Uma brincadeira parecia ocupar um universo inteiro.
Era possível desenhar nas paredes, escalar corredores, transformar o chão ensaboado em um oceano e ainda sobrar tempo para apostar uma corrida e ver quem chegava até a esquina antes de escurecer.

Nós éramos quatro crianças inventando mundos dentro de casa.

As paredes brancas viravam telas.
A escada virava escorregador.
O colchão virava trenó.
Até o banheiro às vezes virava parque aquático.

E depois de cada aventura vinha a bronca, o castigo e a limpeza da bagunça. Mas até isso fazia parte da brincadeira.
Porque o dia parecia infinito.

Na infância, ninguém dizia:
“São 16h42.”

As coisas aconteciam em outro idioma:
“até a mãe chamar”
“depois do desenho”
“antes de escurecer”

O relógio não comandava a vida. Ele apenas observava.

Talvez por isso a meia-noite parecesse algo tão mágico.

Ficar acordado até tarde era um desafio quase impossível.
Queríamos ver como um dia acabava para o outro nascer. Queríamos assistir à virada do mundo.

Mas o sono sempre vencia antes das 22h30.

E no dia seguinte existia uma tristeza engraçada:
“a gente perdeu o desafio.”

Hoje em dia, o desafio é outro.

O relógio gira sem pedir licença.
A madrugada chega rápido demais.
Dormimos tarde sem perceber.
Os dias parecem menores, mesmo quando fazemos menos coisas.

E às vezes bate uma saudade estranha daquela época em que o tempo não tinha peso.

Quando uma parede era uma montanha.
Quando um corredor era um rio.
Quando um colchão era suficiente para criar uma aventura inteira.

Talvez crescer seja exatamente isso:
aprender a olhar para o relógio.

Mas existe uma parte bonita que nunca desaparece completamente.

Ela reaparece quando esquecemos do celular por alguns minutos.
Quando desenhamos.
Quando criamos.
Quando ouvimos música sem pressa.

E então, por um instante, a criança dentro da gente volta a viver naquele velho mundo onde o relógio ainda não existia.




Comentários

  1. A mais pura verdade contada através dos segundos, minutos e horas vividos através dessa bela experiência.

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